Quando compreender o paciente é mais importante do que escolher o ativo
- Mariana Gorayb

- há 3 dias
- 4 min de leitura
Na terapia capilar, a escolha do ativo é importante. Mas ela nunca deve ser o ponto de partida.

Nos dois últimos artigos do Por Um Fio, conversamos sobre um tema que faz parte da rotina de todo profissional.
Primeiro, entendemos que nem sempre um paciente deixa de responder porque o protocolo está errado.
Depois, discutimos como o ambiente biológico influencia diretamente a resposta da terapia capilar.
Agora, surge uma nova reflexão.
Se cada paciente possui um ambiente biológico diferente, faz sentido escolher o mesmo ativo para todos eles?
Essa talvez seja uma das maiores mudanças que estamos vivendo na tricologia.
Durante muito tempo, fomos ensinados a pensar da seguinte forma:
“Qual é o melhor ativo para queda capilar?”
Mas, com a evolução do conhecimento científico, percebemos que talvez essa não seja a pergunta mais importante.
A pergunta correta é outra.
“O que este paciente precisa neste momento?”
Não existe o melhor ativo
Todos os dias surgem novas tecnologias.
Exossomos.
PDRN.
GHK-Cu.
Peptídeos biomiméticos.
Fatores de crescimento.
NAD+.
E, junto com elas, surge também uma pergunta muito comum:
“Qual deles é o melhor?”
Talvez a resposta decepcione quem procura uma fórmula pronta.
Nenhum.
Ou melhor…
Todos podem ser excelentes.
Desde que sejam utilizados no paciente certo, no momento certo e com o objetivo certo.
O problema não está no ativo.
Está na forma como escolhemos utilizá-lo.
O ativo precisa responder a uma necessidade biológica
Imagine dois pacientes com queixa de queda capilar.
À primeira vista, ambos parecem semelhantes.
Mas, durante a avaliação, você descobre que um apresenta um couro cabeludo inflamado, enquanto o outro possui um ambiente estável, porém com sinais de baixa atividade folicular.
Eles realmente precisam da mesma estratégia?
Provavelmente não.
É exatamente por isso que compreender o paciente vem antes da escolha do ativo.
Cada tecnologia possui mecanismos de ação diferentes.
Algumas atuam principalmente na modulação inflamatória.
Outras favorecem a comunicação celular.
Algumas estimulam processos regenerativos.
Outras oferecem suporte metabólico ou auxiliam na reparação tecidual.
Quando entendemos qual é a principal necessidade daquele organismo, a escolha do ativo deixa de ser baseada em tendências e passa a ser baseada em fisiologia.
O tratamento deixa de ser padronizado
Existe uma tendência natural de procurar protocolos prontos.
Eles facilitam o início da prática clínica.
Mas existe um momento em que o profissional percebe que pacientes não seguem protocolos.
Pacientes possuem histórias.
Possuem hábitos.
Possuem diferentes condições metabólicas.
Possuem respostas biológicas próprias.
É justamente nesse momento que o raciocínio clínico começa a substituir a simples reprodução de protocolos.
A avaliação deixa de responder “o que ele tem?”
E passa a responder uma pergunta muito mais importante.
“Do que este organismo precisa para voltar a responder?”
Essa mudança parece sutil.
Mas transforma completamente a forma como conduzimos um tratamento.
O foco deixa de ser apenas combater uma doença.
Passa a ser restaurar condições biológicas para que o próprio organismo consiga responder melhor aos estímulos terapêuticos.
Escolher o ativo passa a ser uma consequência
Quando compreendemos profundamente o paciente, a escolha do ativo deixa de ser um desafio.
Ela se torna consequência do raciocínio clínico.
É como montar um quebra-cabeça.
Cada informação obtida durante a avaliação ajuda a revelar qual peça falta.
Somente depois disso faz sentido decidir quais tecnologias utilizar.
Esse processo torna o tratamento mais individualizado, mais seguro e, principalmente, muito mais previsível.
O conhecimento muda a forma de enxergar a terapia capilar
Talvez o maior crescimento profissional não aconteça quando aprendemos sobre um novo ativo.
Aconteça quando aprendemos a olhar para o paciente antes de olhar para o produto.
Porque tecnologias evoluem.
Novos ativos continuarão surgindo todos os anos.
Mas o profissional que desenvolve um bom raciocínio clínico consegue utilizar qualquer tecnologia com muito mais inteligência.
Conclusão
Existe uma pergunta que todo profissional deveria fazer antes de escolher qualquer protocolo.
“O que este paciente realmente precisa neste momento?”
Quando aprendemos a responder essa pergunta, deixamos de buscar o “melhor ativo” e passamos a buscar a melhor estratégia para aquele organismo.
E essa talvez seja uma das maiores evoluções da terapia capilar moderna.
A escolha do ativo continua sendo importante.
Mas ela nunca deve ser o ponto de partida.
Ela é a consequência de compreender profundamente quem está sentado à nossa frente.
Na próxima semana, encerraremos essa série falando sobre como organizar todas essas informações em um raciocínio clínico estruturado, capaz de tornar as decisões terapêuticas mais seguras, individualizadas e consistentes.
Porque conhecimento sem organização gera dúvida.
Mas conhecimento aliado a um método transforma a prática clínica.
Referências científicas
* Paus R, Cotsarelis G. The biology of hair follicles. New England Journal of Medicine.
* Stenn KS, Paus R. Controls of Hair Follicle Cycling. Physiological Reviews.
* Bertolini M, Paus R. The hair follicle immune system. Journal of Investigative Dermatology.
* Malkud S. Telogen Effluvium: A Review. Journal of Clinical and Diagnostic Research.
* Revisões no International Journal of Molecular Sciences sobre regeneração tecidual, bioenergética mitocondrial e biologia do folículo piloso.
Mariana Gorayb
Tricologista, Cosmetóloga e CEO da Beleza Wellness



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