Por que alguns pacientes não respondem, mesmo quando o protocolo parece correto?
- Mariana Gorayb

- há 12 minutos
- 4 min de leitura
O sucesso de um tratamento capilar nem sempre depende de um protocolo mais potente. Muitas vezes, ele começa muito antes da escolha do primeiro ativo.

Você já teve a sensação de fazer tudo certo e, mesmo assim, o paciente não evoluir?
O protocolo foi bem escolhido.
Os ativos eram de qualidade.
A técnica foi executada corretamente.
O paciente seguiu as orientações.
E, ainda assim, os resultados ficaram muito abaixo do esperado.
Se você já passou por isso, saiba que essa é uma das situações mais comuns da prática clínica.
E existe uma pergunta que pode mudar completamente a forma como você conduz seus tratamentos:
Será que o problema realmente está no protocolo?
Durante muito tempo, aprendemos que, quando um paciente não respondia, bastava trocar os ativos, mudar o equipamento ou utilizar uma tecnologia mais moderna.
Mas a experiência clínica mostra que isso nem sempre resolve.
Porque, muitas vezes, o protocolo nunca foi o verdadeiro problema.
O erro pode começar antes da primeira sessão
Existe uma frase que resume muito bem esse raciocínio:
Não existe um bom protocolo sem uma boa avaliação.
O protocolo é consequência.
A avaliação é que determina o caminho.
É durante a avaliação que começamos a compreender o paciente de forma individual. É nela que identificamos informações capazes de mudar completamente a estratégia terapêutica.
Antes de decidir qual ativo utilizar ou qual tecnologia associar, precisamos entender o que realmente está acontecendo.
Quando essa etapa é superficial, corremos o risco de aplicar um excelente protocolo… para o problema errado.
O cabelo é um biomarcador biológico
Apesar de ser visto principalmente como uma estrutura estética, o cabelo é um importante biomarcador do organismo.
O folículo piloso está entre os tecidos de maior atividade metabólica do corpo humano. Seu funcionamento depende de energia, oxigênio, nutrientes e de uma comunicação constante entre diferentes sistemas do organismo.
Existe, porém, uma característica importante.
O cabelo não é vital.
Quando o organismo enfrenta qualquer situação de desequilíbrio, ele prioriza estruturas essenciais para a sobrevivência, como cérebro, coração, pulmões, fígado e rins.
O folículo piloso deixa de ser prioridade.
Por isso, muitas alterações internas acabam se manifestando primeiro através do cabelo.
Em muitos casos, a queda capilar não é a doença.
Ela é apenas um sinal de que existe algo acontecendo no organismo que merece ser investigado.
O cabelo nasce no couro cabeludo, mas responde ao organismo inteiro
Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes na forma de enxergar a tricologia.
Durante muito tempo, olhamos apenas para o couro cabeludo.
Hoje entendemos que o folículo piloso mantém uma comunicação constante com diferentes sistemas do organismo e responde às condições do ambiente biológico em que está inserido.
Isso ajuda a explicar algo que todo profissional já observou na prática.
Dois pacientes podem apresentar o mesmo diagnóstico.
A mesma idade.
O mesmo padrão de rarefação.
Receber exatamente o mesmo protocolo.
E, ainda assim, apresentar resultados completamente diferentes.
Isso acontece porque o diagnóstico é apenas uma parte da história.
Cada paciente possui uma realidade biológica única.
E essa realidade influencia diretamente a capacidade de resposta do folículo.
A avaliação vai muito além de identificar a alopecia
Muitas vezes, enxergamos a avaliação apenas como uma etapa para classificar o tipo de alopecia.
Mas ela precisa responder perguntas muito maiores.
O que aconteceu na vida desse paciente antes da queda?
Existe algum fator que possa estar limitando a resposta do tratamento?
Há sinais de que o organismo está enfrentando algum desequilíbrio?
Cada informação coletada durante a avaliação ajuda a construir o raciocínio clínico.
É justamente esse raciocínio que direciona a escolha dos ativos, das tecnologias e da estratégia terapêutica.
Quanto melhor entendemos o paciente, mais assertiva tende a ser nossa conduta.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada
Quando um tratamento não apresenta o resultado esperado, normalmente perguntamos:
“Qual ativo devo trocar?”
Mas talvez a pergunta correta seja:
“O que está impedindo esse paciente de responder?”
Essa mudança de raciocínio transforma completamente a prática clínica.
Porque deixa de olhar apenas para o protocolo e passa a olhar para o paciente.
E é justamente aí que a avaliação deixa de ser apenas uma etapa burocrática e passa a ser a ferramenta mais importante de todo o tratamento.
O protocolo é consequência
Os profissionais que alcançam resultados consistentes não são, necessariamente, aqueles que possuem o maior número de protocolos.
São aqueles que conseguem interpretar melhor seus pacientes.
Quanto mais completo for o entendimento sobre aquele organismo, mais assertiva será a escolha dos ativos, das tecnologias e da estratégia terapêutica.
Por isso, talvez o maior diferencial da tricologia moderna não esteja em descobrir um novo ativo.
Esteja em aprender a fazer as perguntas certas.
Conclusão
Se existe uma mensagem que eu gostaria que você levasse deste artigo, é esta:
Quando um paciente não responde ao tratamento, nem sempre o protocolo está errado. Muitas vezes, a avaliação é que ainda está incompleta.
O protocolo continua sendo importante, mas ele é apenas a consequência de um bom raciocínio clínico.
Antes de escolher o ativo, o equipamento ou a técnica, precisamos entender quem é o paciente, o que está acontecendo com seu organismo e quais fatores podem estar limitando a resposta do folículo.
Porque, no fim das contas, não tratamos apenas cabelos. Tratamos pessoas. E pessoas são sistemas complexos, onde tudo está conectado.
Talvez seja justamente essa mudança de olhar que diferencie tratamentos comuns de resultados realmente consistentes.
E essa é apenas a primeira etapa dessa conversa.
No próximo artigo, vamos responder uma pergunta que pode mudar a forma como você interpreta seus casos clínicos: afinal, o ambiente biológico realmente influencia os resultados da terapia capilar?
Até lá, deixo uma reflexão:
Na sua prática clínica, você tem escolhido o melhor protocolo… ou tem feito as perguntas certas antes de escolhê-lo?
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Referências para aprofundamento
* Paus R, Cotsarelis G. The biology of hair follicles. New England Journal of Medicine.
* Stenn KS, Paus R. Controls of Hair Follicle Cycling. Physiological Reviews.
* Paus R. The hair follicle as a neuroendocrine organ. Experimental Dermatology.
* Bertolini M, Paus R. The hair follicle immune system. Journal of Investigative Dermatology.
* Malkud S. Telogen Effluvium: A Review. Journal of Clinical and Diagnostic Research.





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